#### #002309 – 24 de Setembro de 2025

#002309 – 24 de Setembro de 2025

Há formas diferentes de estar errado. Mesmo quando as consequências são igualmente terríveis, pode haver diferenças importantes. Pensemos, por exemplo, em duas pessoas. Uma aproximou-se do fascismo quando este propunha culpar o estrangeiro, o comunista, o inimigo interno e o marginal de todos os males. Esta pessoa aderiu ao projecto fascista porque via nele um impulso revanchista, que resolveria com grande violência todos os ultrajes e indignações que a assombravam. Uma outra pessoa acreditou no Estalinismo, admitindo que talvez uma mão forte e implacável com os inimigos e contravelucionários fosse necessária para finalmente se atingir uma sociedade justa e igualitária. Uma e outra viram os seus projectos políticos derrotados. Imaginemos que uma e outra aceitaram na derrota a evidência de um mau método, mas teimaram que os objectivos iniciais continuavam relevantes e nobres. Isso significa que uma deixou de acreditar que o fascismo é a melhor forma de se vingar do estrangeiro e do inimigo e a outra deixou de acreditar que a força é a melhor forma de atingir uma sociedade justa e igualitária. Embora o fascismo e o estalinismo tenham igualmente causado a morte de milhões e aberto feridas que ainda hoje infectam as nossas sociedades, a desilusão (no caso destas duas pessoas ficcionais) com um e outro sistema tem resultados diferentes, pelo menos potencialmente diferentes.

Como a construção desta experiência de pensamento já está enviesada (uma das pessoas quer vingar-se e a outra quer uma sociedade melhor), usemos esta lógica num outro exemplo, mais próximo. Dois eleitores do Chega, que votaram com motivações diferentes. Um votou porque viu no voto a forma mais viável de extremar a política, talvez até aconselhado por um extremista (como no caso de alguns eleitores que votaram Chega por conselho do Mário Machado). Um outro porque estava desiludido com os políticos em geral e achou que tinha pouco a perder e ao menos votava em alguém que dizia que ia mudar o sistema. São muito diferentes estes eleitores. Embora se alguma vez o Chega chegar ao poder ambos tenham contribuído para isso, as diferenças entre os dois eleitores são importantes. É obrigação de quem quer realmente que a política melhore a sociedade conquistar o eleitor que está desiludido com os políticos e que não votou num candidato extremista por convicção. Este eleitor faz parte da maioria e demonizá-lo, além de injusto, é contraproducente. O outro eleitor dificilmente será persuadido a escolher a liberdade e a democracia. O seu voto é táctico e num instante mudaria para um candidato ainda mais extremista se o houvesse. Existem fascistas, são perigosos e estão mais próximos do poder que nunca nos últimos 50 anos. Mas não devemos cair no erro de tratar a maior parte da população como fascistas nem desistir de quem, por passar dificuldades, deixou (com bons motivos para isso) de confiar na classe política. A maioria das pessoas quer viver em paz com os seus vizinhos e não deseja inimigos. Se a narrativa fascista ganha terreno, é também porque não são apresentadas alternativas a quem tem dificuldade em pagar as contas e alimentar os filhos. Cabe a todos os democratas derrotar estas explicações que fazem do estrangeiro e do inimigo interno (como dantes) o bode expiatório de todos os males. E, acima de tudo, apresentar soluções para melhorar a vida das pessoas, para as tirar da pobreza, proporcionar cuidados de saúde decentes, reduzir a precariedade no trabalho, eliminar as desigualdades sociais.