#002420 – 12 de Janeiro de 2026
Custa-me usar a campainha da bicicleta. Ela existe, está montada, funciona e tem um propósito. Mas depois inibo-me quase sempre, antes de a fazer soar. Sinto-me o equivalente, em duas rodas, a um condutor chato nas costas de alguém, a tocar a buzina. Sinto-me pior que esse condutor. A buzina de um carro tem um som zangado, tonitruante e imbecil, e quem a usa depudoradamente está a assumir a sua atitude agressiva e beligerante. É desagradável mas honesto. Tocar a buzina é assumir a incivilidade a que a buzina soa. Já a campainha da bicicleta tem o timbre de uma campainha de aristocrata a chamar um subalterno, um fidalgo que desliza pela paisagem esperando que os camponeses se desviem. Não gosto dessa dissonância que provavelmente nem existe.