#002423 – 14 de Janeiro de 2026
The Cyberiad, não sendo exatamente um livro convencional, é ainda assim um bom exemplo de uma das coisas que distingue a ficção científica de outros géneros de ficção. As duas personagens, Trurl e Klapaucius, aparecem em todos os contos. São centrais naquelas histórias, enquanto “construtores cósmicos”. Mas nunca as chegamos a conhecer bem, nem com os muitos diálogos e peripécias por que passam. Não sabemos quase nada sobre o que pensam, sobre o que são, sobre o seu passado. Estas personagens são um pretexto para contar uma série de histórias. Na outra ficção, o que está em volta das personagens (desde os locais que habitam e que atravessam aos eventos em que se vêem metidas) é “apenas” contexto para o crescimento, a viagem interior da personagem. Não é que isso não exista na ficção científica. As personagens da Ursula K. Le Guin, por exemplo, são complexas, têm mundos interiores ricos e são tão importantes (centrais mesmo) como tudo o resto nas páginas. Mas uma história sci-fi pode, como as de Cyberiad, de Lem ou A Biblioteca de Babel de Borges, ter personagens que são apenas veículos para o mundo que se revela nas páginas e a forma como esse mundo nos interpela. No limite, uma história pode nem ter personagens, como n’As Cidades Invisíveis do Calvino. É verdade que a ligar a história de cada cidade há uma vaga backstory de Marco Polo. Mas isso é apenas um pretexto. Os mundos da ficção científica são-nos criados na imaginação e podemos visitá-los. Somos seus imaginários turistas e não apenas (como habitualmente na ficção centrada em personagens), observadores de viagens alheias.