#002379 – 02 de Dezembro de 2025
Cruzo-me com a mesma senhora, que aparenta a minha idade, que ia no comboio para Guimarães. Agora, já na direção do Porto, ela mostrou-se muito atenta a mim e perguntou se me queria sentar no lugar dela, que é o único, na carruagem, que me permite segurar a bicicleta sem incomodar ninguém. Ela chegou-se para o lado, depois de trocarmos duas frases em inglês. De vez em quando levanta-se e vai longos minutos a ver a paisagem minhota. Pergunto-me se sabe o que é o 25 de Abril, que há tão pouco tempo este país que visita era uma ditadura, que eu vim para Portugal durante uma revolução, que há quem fale com escárnio dos últimos 50 anos (tantos como os que eu vivi). Não sei de que país é, se os traços asiáticos são de nativa ou de emigrante, se vive ou não numa democracia. Sei que foi simpática, humana, reparou em algo que nunca ninguém tinha reparado, teve o cuidado de se dirigir a mim com a generosidade de quem não vê num pequeno gesto de cortesia um fardo. Estou cansado depois de pedalar, um pouco comovido com a beleza do dia e a fragilidade da liberdade e grato por tantas coisas na minha vida.