#002415 – 07 de Janeiro de 2026
As histórias só existem, inteiramente, a partir do momento em que são escutadas ou lidas. Por muito que tenha havido e sempre haja escritores que não publicam, que não mostram e até que destroem as próprias histórias, a figura do leitor paira sempre. O leitor é essa assombração benigna que, invertendo a lógica habitual, invoca a pessoa assombrada. É revelador que em narrativas em que um ser humano é o único sobrevivente, por vezes no planeta inteiro, escrever um diário se torne uma rotina. Em tão grande vazio, o registo da realidade, que talvez por falta de contraditório de outras pessoas, se torna matéria mais preciosa e frágil, ajuda talvez à sanidade. É comum estas personagens anotaram o que lhe acontece, o que viram, o que pensam. E é credível que qualquer um de nós recorresse à linguagem dessa forma, para descrever e lembrar. O que mais difícil de imaginar é uma pessoa absolutamente solitária (nesse sentido em que o seu leitor está absolutamente ausente, não o assombra mais) que desata a escrever ficção, a contar uma história nova.